Ocorreu no último sábado (20/08) o 61° festival nacional de folia de reis em Muqui/ES. Essa manifestação é uma tradição cultural presente em muitos territórios país afora, e sua dinâmica se dá em dois sentidos complementares e dialéticos. Por um lado, a diversidade de grupos presentes é linda, e se reflete nas diversas cores e tipos de indumentárias, além disso... quantas etnias! Coisa linda ver tanta gente diferente sob uma mesma bandeira e participando de um evento onde não existem vencedores e perdedores (todos são premiados por participar). Esse tipo de manifestação dá força a tal idéia de democracia racial, que aqui deixa de ser somente mito de conservação do status quo para ser também uma prática e uma cultura com potencial solidário e agregador. Isso é fruto da organização dos grupos e também da estratégia da política cultural do estado do Espírito Santo.
O papel do estado abre outra gama de aspectos desse fenômeno, que explicitam a lógica do tipo de desenvolvimento que se dá em nosso país.
Ali estavam presentes aspectos autoritários e amadores da política pública (como o secretário estadual de cultura querendo definir como deviam ser as fantasias e músicas dos grupos..) que denunciam também a condição periférica desses grupos em relação a sociedade cresecentemente tecnológica que exclui aqueles que não compartilham dos mesmos desejos e valores, são vistos como uma espécie de "zoológico do passado", destinados a permanecer nas mesmas condições sociais e culturais de outrora. Assim como os índios foram expostos como bichos pelos franceses no passado, há algo que não cheira bem na tradição folclorista hegemônica..afinal, qual o projeto em relação a estes grupos? Liberdade de escolha ou permanência cultural forçada? Auxiliar seus projetos próprios ou faze-los se inserir nos projetos hegemonicos? Ainda bem que a dinâmica da vida é mais forte que qualquer lei social e as coisas se transformam invariavelmente, curiosamente a unica lei onipresente é justamente a lei da transformação da vida....
Esse é um assunto para um sem-número de teses acadêmicas (e outros tipos de tese também) e jamais seria esgotado nesse breve post. No entanto vale o registro do evento em toda sua contradição dialética.